Caixa dois nas campanhas eleitorais

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Antes de entrar no tema, peço desculpas aos leitores por este artigo longo, imploro que tenham um pouquinho de paciência e leiam até o final, por favor.

Elaborei este texto com a responsabilidade e a experiência de quem já esteve atuando nas três esferas de poder. Já exerci os mandatos eletivos de vereador e deputado, fui assessor do Tribunal de Contas dos Municípios, Chefe da Casa Civil, advogado e, atualmente, secretário municipal de meio ambiente.

O caso do Governador Arruda é mais um, entre muitos já acontecidos. O enredo é o mesmo. Dinheiro público desviado com a justificativa de sustentar atividade política, isto na melhor hipótese, se é que tem melhor.

Flagrados com a mão na botija, como se dizia antigamente, roubando o dinheiro do povo, o político apela para sofisticação e imita o presidente Lula, que, no episódio do mensalão, foi para França, no jardim de um belo castelo, diante de uma jornalista desconhecida, indagou – quem não faz caixa dois no Brasil? Todos calaram, igual aqueles que apedrejavam a mulher. 

O Presidente voltou da Europa, como se nada tivesse acontecido, venceu mais uma marolinha. Os chamados mensaleiros renunciaram ao mandato ou foram absolvidos, candidataram-se novamente, sendo eleito para uma outra chance, como que teve Arruda, após se envolver no caso da fraude do painel do Senado.

Os únicos mensaleiros que ficaram sem mandato foram Roberto Jefferson, que ainda hoje preside o PTB e o Zé Dirceu. O Zé, talvez por isso se ache injustiçado até hoje: - porque só eu? deve perguntar-se defronte do espelho, ao fazer a barba todas as manhãs. Mas Zé Dirceu, virado como ele só, mineirinho comequieto, passou a prestar consultorias e, hoje, é um homem rico, dizem.

Disse-me um político de Brasília, com quem conversei a pouco, que se houvesse um sujeito filmando em cada município brasileiro, provavelmente, teríamos mais de cinco mil escândalos. É bem provável.

Estamos cansados de saber que febre e dor de cabeça não são doenças. Estes sintomas não passam de reações do corpo a verdadeiros males que os ataca. É preciso, pois, investigar, diagnosticar e tentar curar a mazela para que a febre a dor passe definitivamente.

A corrupção ou o desvio de recurso publico para outras finalidades, nunca serão curadas com aplicação de analgésicos. Precisamos descobrir o tumor e extirpa-lo. Será que faltam médicos, aparelhos para os exames ou o paciente não quer se submeter ao tratamento adequado?

O Brasil vem sofrendo desta doença a um bom tempo. Antes do golpe de 1964, pelo menos é o que o noticiário político informa, o clima de corrupção no País era terrível. Para supera-lo entramos num cinzento cenário, vidas foram ceifadas, atrocidades cometidas, liberdades suprimidas, com a promessa que o Brasil seria passado a limpo. Pagamos um preço absurdo para, no final, termos mais e mais escândalos.

Fizemos a luta por democracia e reconquistamos o direito de votar. Logo o nosso primeiro presidente eleito sofreu impeachment por corrupção, caixa dois, tráfico de influência, digo isso para não vir um engraçadinho dizer que foi apenas um Fiat Elba. As instituições funcionaram, a democracia venceu, e o Presidente foi impeachmado. Comemoramos nas ruas os bons ventos.

Depois deste episódio, e de uma transição, elegemos um mestre, um doutor honoris causa , o papa do centro-esquerda, o conciliador, o social-democrata, o moderno europeu Fernando Henrique Cardoso, mas seu governo, também, foi alvo de denuncias de escândalos.

Segundo o que foi registrados pela revista Consciência: " Entres os 45 pontos estão os casos Sudam, Sivam, Proer, caixa-dois de campanhas, TRT paulista, calote no Fundef, mudanças na CLT, intervenção na Previ e erros do Banco Central.”

Oito anos se passaram e o povo brasileiro, depois ter preterido por diversas vezes o radical petista de esquerda, favorável a ocupação de terra, a socialização até de quitinete e a estatização de granja, que metia medo na burguesia, sendo, inclusive, alvo de campanhas difamatórias, como a que fez o empresário Mário Amato, mandando os empresários abandonarem o Brasil em caso de sua vitória, resolveu elege-lo. Pânico para alguns, euforia para outros.

Lula assumiu, manteve a equipe econômica de FHC e todas as principais orientações do governo anterior. Procurou se entender com a burguesia nacional, aprofundou os programas sociais do PSDB. Mas logo vieram os escândalos do tipo mensalão, dinheiro na cueca, os trapalhões do falso dossiê…

Feito esta longa e maçante retrospectiva, vamos tentar encontrar o tumor, a doença. Afastemos de cara a idéia que o corpo poderá ficar permanentemente livre de bactérias ou imune a ataques, isso é impossível. Para evitar ataques, o remédio é reforçar as defesas naturais, através de instituições livres e democráticas, mantendo vigilância permanente, contra os invasores.

A máquina pública sempre será atacada pelo ladrão comum, o marginal, o assaltante de cofres, que usa a política para enriquecer, aumentar seu patrimônio pessoal. Neste caso, deve-se aplicar a defesa natural através de bons sistemas de controle externo e interno, é punir exemplarmente o marginal, aplicando-lhe a lei penal com a gravidade que o caso merece. Acredito que a lei processual deveria trata-los especialmente, não permitindo qualquer tipo de embromação ou estratégia de prescrição.

Dito isto, concentremos nosso atenção no quadro especial da enfermidade: aquela que resultou nos escândalos que se repetem, envolvendo gente considerada séria, com história política respeitável, com serviço prestado ao país, vindos de quase todos os partidos políticos.

Os partidos e políticos, para conquistarem o apoio de líderes, mantém uma rede de favores, de atendimentos, a um custo sempre superior as sua possibilidades arrecadadoras e pessoais. Pois, mesmo a campanha mais republicana do mundo, não é feita sem custo financeiro. Essa é uma verdade insofismável.

A legislação partidária e eleitoral, cheia de crimes e proibições, não responde as indagações da realidade política brasileira. Proibiu-se tudo, inibiu-se o debate, premiou-se a ilegalidade. Os atuais ocupantes dos cargos legislativos, responsáveis por votar a reforma política, são refratários a mudanças, afinal, eles foram eleitos com as regras atuais.

As campanhas começam sempre um ano antes do pleito, mas as arrecadações oficiais só estão autorizadas depois das convenções. Quem paga e como paga as despesas que acontecem neste período?

As empresas e os eleitores brasileiros não fazem doação de campanha, salvo se forem prestadores de serviço público ou dependentes de decisões governamentais.

Os doadores de campanhas, quando fazem, preferem dar suas contribuições sem aparecer, justamente para evitar perseguições ou encrencas futuras.

A maioria das despesas eleitorais foram criminalizadas, mas nem por isso deixaram de ser feitas, apenas o recurso que se utiliza é o de caixa dois ou recursos não contabilizados.

As eleições, por força das mudanças operadas na legislação e na constituição, privilegia o debate apenas para os cargos majoritários. O legislativo é eleito sem que o eleitor conheça a proposta, o currículo, a vida pregressa dos futuros legisladores.

O povo não faz uma correlação entre o candidato executivo de sua preferência e apoio parlamentar que este vai necessitar para ter a chamada governabilidade. Resultado: elegemos o chefe do poder executivo e não lhe damos uma confortável maioria legislativa.

Quantos prefeitos, para não falar em governador e Presidente da República, estão nas mãos ou sendo chantageados por vereadores? Cada votação, por menos importante que seja, vira uma negociação. Um autorização legislativa para o município tomar empréstimo, gera a exigência de celebrar convênios para entidades, as vezes, fantasmas, indicadas por parlamentar. Uma ameaça de instalar uma CPI pode render muitos cargos e indicações políticas. A aprovação do orçamento anual só é feita se o chefe do executivo negociar as emendas parlamentares. O País não aguenta tudo isso e nem a Polícia Federal e o Ministério Público são o caminho mais seguro para resolver esta crise.

Vamos punir exemplarmente os corruptos e praticantes de caixa dois, vamos expulsa-los da vida pública, coloca-los atrás das grades, mas vamos, de uma vez por todas, convocar uma Assembléia Constituinte específica para fazer a reforma política. Os constituintes, para esta nobre e importante tarefa, deveriam sair uma parte do povo, por voto direto; a outra por indicação de instituições sérias como a OAB.

7 opniões:

Anônimo disse...

É lamentável, mas é a triste realidade que assola nosso país. É perfeita a retrospectiva histórica traçada a cerca da corrupção que se tornou um câncer no Brasil. Uma das justificativas dos militares para o golpe era justamente o combate à corrupção mas no entanto sabemos que ela continuou de forma velada por todo o tempo que os militares permaneceram no poder.Só não vinha à tona devido o manto da censura ou o controle sobre a imprensa que impedia que o grande público tivesse conhecimento. Exemplo disso foi o envolvimento do então ministro da justiça Ibrahim Abiakel no tráfico dos diamantes. O que acabou inspirarando Chico Buarque na maravilhosa música - vai passar.Então meu caro Zé, o "remédio" para a doença é a reforma política, mas também moral e ética. A sociedade deve evoluir no sentido de ter mecanismos eficazes para fiscalizar os mandatos dos políticos,através de ONGs e entidades reconhecidas como de valor inestimável para a sociedade.Outra maneira seria, na reforma política, limitar o mandato do parlamentar em no máximo um mandato. Isso garantiria uma maior rotatividade do poder.

Anônimo disse...

Zé, vc já leu a Revista Época dessa semana, se leu podia ter inserido também a matéria falando sobre desvio de conduta da filha, esposa e genro do Chico Mendes, que deve estar envergonhado do que andam fazendo com o nome dele, ou será que lá não está acontecendo desvio de dinheiro também. E de que partido eles são? Me diga Zé, alguém na política ainda pode falar de ética por aí? Precisam de muito cuidado.

José Carlos Lima disse...

Anônimo
Pode ser que esteja sim acontecendo alguma de errado no Acre, mas o meu artigo não é para acusar este ou aquele político, devo ter carregado nas tintas aqui ou acolá por vício, porém meu objetivo é chamar atenção para necessidade de se fazer uma reforma política no Brasil.
O que eu quero é separar o joio do trigo e continuar fazendo política sem que as pessoas olhem desconfiadas para minha cueca ou para minhas meias e nem desconfiem dos panetones de natal.

Anônimo disse...

Zé, que tipo de político vc é afinal de contas? Pq o Partido Verde ainda continua coligado com o partido do Duciomar aqui em Belém? Se o PV prega um projeto, não haveria necessidade de se ter mias essa coligação que é de fachada, é só por causa de alguns cargos? Desiste, o PV é muito mais do isso tudo. Dessa forma e desse jeito vcs não se projetam. Quem é ogrande nome do PV por aqui, vc ou o Orlando Reis, grande traidor do povo necessitado de Belém. Vc ainda tem um nome azelar, sai dessa antes que a campanha a presidência comece, ou então todos deste partido não vão conseguir entrar em nenhuma rua de Belém. Seu passadoé bom, embora com algumas passagens pelo PSDB de apoio q fizeram ajudem a denegrir um pouco. Mas ainda dá tempo. Ou tudo faz parte da política?

Anônimo disse...

Desse imbróglio ninguém está imune, mais do que isso, todos estão contagiados, inclusive, os que fazem, discursivamente, apologia da ética (não precisa se olhar no espelho, basta fazê-lo para os lados, quando, já maculados pela anti-ética). Por exemplo, parece contraditório (ou não ?, numa visão pragmática) o PV( ou suas lideranças) de namoro com a Ana Júlia(ou é o Jatene?), a braços dados com o Duciomar. A solução nesse sentido iniciaria por uma declaração de mea culpa e co-responsabilidade,com humildade, todos no mesmo patamar, sem maniqueísmo.

José Carlos Lima disse...

Os dois últimos comentários que questionam o PV e suas alianças não deixam de ter razão. O PV bem que podia ficar fora de todos os Governos. Só tem um problema. No Brasil de hoje não temos partidos ideologicos, ainda bem, pois seria muito dificil conviver com a política dividida entre direita e esquerda... Para nós do Partido Verde o que está em jogo é a possibilidade de construir políticas públicas a favor do meio ambiente, da sustentabilidade, da harmonização entre desenvolver e preservar, superando as desigualdades sociais. Isto é o que nos interessas.
Essa baixaria de que o PV troca apoio por cargos não cola, irmão.

Anônimo disse...

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