Papagaios chineses não são os culpados

terça-feira, 7 de julho de 2009

Na edição de O Liberal, uma interessante matéria, aborda a febre dos papagaios chineses que invadiram Belém, questionam com o maior fabricante dos nossos, o Cobra, se a tradição está ameaçada. Cobra afirma que não.
A nossa tradição de construir e empinar papagaios está ameaçada sim, mas não pelos chineses. É que as crianças de hoje perderam os espaços urbanos para praticar a brincadeira, além disso, não sabem construir os verdadeiros papagaios.
Nos bairros, onde a rua ainda é o local para empina-los, as crianças usam uma "cangula" , feita de saco de supermercado, coisa feia e sem a menor criatividade.
No meu tempo de Guamá, todos os moleques sabiam fazer o seu próprio papagaio, “encerar” a linha e dar “laço”. Era só virar o "geral" que nós íamos para as ruas, sem os fios da Celpa, colocar nossos papagaios no ar. Tinha de todos os tipos: o “vezinho”, o “bandola”, o “japão”. Um que subia no “leso”, aquele que pegava no “treme”, um papagaio “penso”, precisava de barriga ou de um pano para não “enterrar”.
Quem não sabia “empinar” papagaio, fazia subir uma “cangula” de papel, uma “rabiola” ou uma "curica".
Todos eram obrigados a dar “laço”. Só os “penosos” não participavam da brincadeira. Para dar “laço” era preciso obedecer a regra: não valia pegar no “gasgo” ou “dar na mão”. Cortar e aparar era muito perigoso, pois a linha bamba do papagaio que ia chinando podia cortar o que estava no ar.
E os tipos de “cerol”? O mais famoso era o “cerol do aço do pico” - na verdade acido pícrico, tinha o cerol de cola e também de goma. A linha não podia ficar com "bololo". Tinha cerol para o "discai" ou para o "pendura".
A brincadeira começava com a fabricação do papagaio, a escolha da linha, o vidro para o cerol, encerar a linha, fazer o rabo do papagaio, esperar o bom vento e colocá-lo no ar. Depois era só dar cabeça e o laço. Se você fosse o último a baixar o seu papagaio, podia ganhar o título e a fama de “fanchão”.
Depois eu faço um dicionário com as gírias dos empinadores de papagaio. Por enquanto a conversa é só para quem empinou um bom “enguinador”.

4 opniões:

Anônimo disse...

Zé,égua voltei aos meus 9 anos no telegrafo.Quem nunca empinou,não viveu,voce agora me fez bem cêdo, recordar os bons tempos,sem violeência,sem malícia,apenas brincadeira de criança,que bom que nós podemos reviver o passado.Isto que é recordar,como dizia Eloy Santos, recordar é viver.
Coqueiro

Anônimo disse...

Pôxa, Zé, num dia que estou muito triste pelas surpresas desagradáveis que a vida nos prega, fizestes eu recordar da minha infância. No mesmo Guamá que você tão bem descreve, lá pelas bandas do Piquiá, do Cemitério Santa Isabel e das grandes áreas do Barros Barreto. Lugares propícios para uma boa brincadeira.
Só faltou lembrar que a tala para fazer os papagaios era comprada alí no mercado de São Braz e o papel celofane, de variadas cores, num pequeno armarinho alí na José Bonifácio. E anda tinha o papagaio "tezinho", que subia faceiro, se rebolando mesmo, com um rabinho branco e uma ponteira preta, como que fazendo inveja aos demais.
O rabo era de pano fino, de preferência um murim, rasgado em tiras bem finas de uma camisa velha ou de uma fralda já sem uso. Muito melhor do que os plásticos de hoje.
O resto era arte e a criatividade de fazer o bichão subir e acabar como fanchão do dia. Tudo embalado com uma boa encarnação na turma, garotos iguais a nós, que só queríamos nos divertr com uma brincadeira de criança, sem volência, sem maldades e sem saber como seria o amanhã.
Apesar de tudo, sinto saudades do bairro que me acolheu por mais de 30 anos e que, ainda hoje, acolhe a minha mãe.
Mesmo que não seja mais nem a sobra daqueles bons tempos.

Orly Bezerra

José Carlos Lima disse...

Orly
Belo comentário. Pemita-me incorpora-lo ao meu post? Acrescentando que vocês do hoje Monetepio tinham a área do velho Hospital Domingos Freire que era apropriado para a pratica de empianar papagaios.

Anônimo disse...

É verdade, Zé.
Naquela área só havia um problema: quando os papagaios chinavam e engatavam nas frondozas árvores de eucaliptos, que resistem até hoje naquela área.
Claro que pode publicar.
Abração,
Orly

 

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